XVI – O MEDALHÃO
O vento rugia tempestuoso varrendo do mar o cheiro ocre de madeira queimada. Lisandra caminhava cuidadosamente por sobre os destroços de um navio mercante. Seu coração estava apertado ao ver tanta destruição, tantas vidas ceifadas por puro egoísmo. Ela estava aflita, mas seguia perseverante em seu único propósito de encontrar a pessoa que a chamara, implorando por socorro.
Estava escuro no navio e o pouco de luminosidade vinha da tocha em sua mão esquerda, providência tomada as pressas usando o próprio fogo que queimava o navio. Lisandra avistou um longo pedaço do mastro e percebeu que algo se mexia debaixo dele. Aproximando-se viu que era um homem muito ferido. Balançava um medalhão de ouro na mão esquerda e murmurava ajuda.
— Morsa, meu filho. medalhão... Baía dos Gatunos. Por favorrrr!!!
Quando Lisandra pegou o medalhão, o homem olhou para ela e sorriu com seus dentes amarelos enquanto seu olhar se tornava vazio e se extinguia.
Lisandra tremia dos pés a cabeça. Não conseguira salvar aquele homem, mas ele lhe dera uma missão que ela faria de tudo para executar. Afinal era o último pedido de um homem desesperado e ela não sossegaria até realizá-lo.
Guardou o medalhão no bolso do corpete junto ao punhal das fadas. Estaria seguro ali. — pensou. Lisandra deu meia-volta e partiu em direção ao Ondinas no pequeno bote que deixara amarrado num pedaço de madeira firme.
Na amurada do Ondinas as sereias a olhavam intrigadas, todas querendo saber o que Lisandra encontrou no cemitério. O mesmo se passava no Tritão, mas apenas um olhar incomodou Lisandra a ponto de ela procurá-lo. Um pirata mascarado de cabelos negros e compridos estava debruçado na amurada com os olhos fixos em Lisandra. Ela ficou intrigada, mas não deu tanta atenção a sensação de inquietação que comprimia seu peito. Por outro lado, Lair sentia-se assustado, o coração aos pulos como se quisesse saltar boca afora.
— Ele se foi. — respondeu Lisandra a pergunta lida no olhar da capitã depois que içaram o bote e o amarraram ao navio.
— Então havia realmente alguém lá! — exclamou a capitã surpresa.
— Então havia realmente alguém lá! — exclamou a capitã surpresa.
— Sim, havia, mas não pude ajudá-lo. Já era tarde demais. — lamentou abaixando a cabeça tristemente.
— Não precisa ficar desse jeito. Você fez o que pode. — disse Magar gentilmente.
— Eu sei disso. Obrigada por esperarem por mim. — disse Lisandra apertando a mão da capitã em seu ombro.
— Hum! Hum! Vamos sair daqui agora cambada! Todas para seus lugares. Força total! — gritou a capitã, mas quando se dirigia ao leme foi interrompida pela voz de Lisandra.
— Capitã onde fica a Baía dos Gatunos?
— Não muito longe. Por quê? — perguntou a capitã desconfiada.
— Porque é pra lá que tenho que ir agora. Eu prometi.
— Ei! Pera aí! Nós vamos para Passo Estreito. Tenho negócios a tratar com um certo sujeitinho lá. E vamos...
— Desculpe capitã. Não precisa me levar até lá. Só peço que me deixe em algum lugar onde encontre um guia.
— Você pirou? Sabe o que te espera naquele lugar? — Lisandra negou. Não sabia, mas não iria desistir. — Pois vou lhe explicar. A Baía dos Gatunos é um lugar infestado por gente da pior espécie. Eles não tem piedade por nenhum ser vivo. Não respeitam seus familiares e até escravizam as mulheres que são diariamente violentadas.
— Mais um motivo para eu ir até lá. — teimou Lisandra.
— Quem você pensa que é garota? Uma deusa? Eles não tem fé em nada. Rainha? Eles cospem em sua moeda todos os dias. Esses caras sugam sua energia, roubam seus pertences e até mesmo sua alma. Você será o prato do dia para aquela gente, isso sim. — desabafou Magar exasperada.
Lisandra ouviu os argumentos de sua capitã e os entendia. Apenas seu coração se apertava ainda mais, pois sabia que as deixaria em breve. Fora muito gratificante ser a Encantadora de Mares do navio Ondinas. Quem diria que navegaria ao lado de piratas. O medalhão em seu peito parecia querer feri-la e a lembrança do homem que o confiara lhe pesava na alma e no coração.
— Obrigada por tudo o que fez por mim capitã. Sei que minha presença culminou em algumas situações desagradáveis. Desculpe, não era minha intenção. — Lisandra curvou-se perante a capitã como se estivesse perante uma rainha e isso deixou Magar desconcertada.
— Foi uma honra ser aceita como Encantadora de Mares do Ondinas. Eu amo esse navio e o defenderia com minha própria vida, mas meu caminho ainda não terminou. Aprendi muito com todas e vou levá-las na lembrança por toda minha vida.
Lisandra endireitou o corpo e caminhou em direção as outras piratas. Fúria, a pirata que nutria sentimentos ruins pela garota, deu um passo a frente e encostou um facão serrilhado no peito de Lisandra.
— Não estou nem aí pra essa conversa fiada. Estou sentindo cheiro de ouro. O que você pegou naquele cemitério sua ladrazinha. Vamos! Mostre o que está escondendo no meio das suas tetas malditas? — Fúria forçou o facão para baixo rasgando o corpete de Lisandra e deixando a mostra o medalhão dourado e o punhal.
— Não! — gritou Lisandra aterrorizada. — Não toque nele!
O grito de Lisandra chamou a atenção dos piratas do outro navio que já tinham voltado a seus afazeres. Alguma coisa lhes diziam que aquilo não acabaria bem. E não é todo dia que participavam de tantas emoções afinal.
— Afaste-se dela Fúria! — gritou a capitã desembainhando a espada da cintura e apontando-a para a companheira pirata. As outras, posicionadas atrás de Fúria estavam hipnotizadas pelo brilho que vinha do peito de Lisandra.
— Ahahahahahaha! — Fúria gargalhou enlouquecida. — Vejam todas vocês. A gatuna fingida a santa é uma ladra da pior espécie.
Fúria arrancou o medalhão com a ponta do facão e o girou mostrando-o para quem quisesse ver. Mas a pirata não se contentou apenas com o medalhão. Desde que o vira pela primeira vez quando Lisandra desviou o Ondinas de um rodamoinho que estralhaçaria o navio, ela cobiçou o punhal. Em um ato insano a pirata arrancou o punhal com a mão direita e triunfante mostrou a todos o objeto brilhante.
Lisandra chorava apavorada, pois sabia o que viria a seguir. A felicidade de Fúria não durou nem dez segundos. Todos os piratas e sereias ficaram assombrados quando o punhal brilhou numa luz intensa cobrindo todo o corpo da pirata. Logo após tanto o punhal quanto o medalhão caíram ao chão. A luz brilhante dissolveu-se no ar fazendo Fúria desaparecer com ela.
Continua...

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