Os piratas estavam acostumados a lidar com a morte, seja em brigas, em jogos ou em lutas por tesouros ou em bombardeios entre outros navios piratas. Aquilo, no entanto, era diferente.
Os navios foram massacrados e incendiados por puro capricho. Os tripulantes não tiveram a mínima chance de lutar, pois eram na maioria velhos, mulheres e crianças.
Era difícil ver aqueles seres de olhos vítreos, que mais pareciam fantasmas. Eram pessoas simples que perderam suas terras e seus bens, restando-lhe apenas embarcar em navios de carga rumo à ilha dos refugiados. Lá os homens seriam empregados nas minas de carvão enquanto as mulheres e crianças trabalhariam na lavoura e na criação do gado. Um sonho acalentado no desespero de sobreviver numa terra distante lhes foi arrancado brutalmente sem um pingo de piedade.
Uma voz melodiosa espalhou-se tristemente pelo ar. Lisandra cantava em respeito aquelas pobres almas. Sabia o sofrimento que passaram, pois tivera uma visão do horror por qual passaram. Nesse momento ela sentia-se impotente. Não era fada nem humana, apenas um ser com sentimentos que transbordavam de sua alma escorrendo pela face clara como a lua nova, que hoje estava escondida por uma nuvem de fumaça.
O silêncio foi geral. Mesmo quando o navio Tritão emparelhou-se com o Ondinas ninguém conseguia verbalizar o que sentia. Lair viu a menina que cantava e sentiu o peito apertar-se e um nó criou-se em sua garganta. Lisandra parecia um anjo negro que viera levar as almas para o sepulcro eterno.
O canto teve seu fim. Lisandra estava esgotada, mas ainda não terminara sua missão.
— Tenho que descer e chegar mais perto. — disse olhando para a capitã e apontando o indicador direito para o bote de madeira atrelado a amurada no navio, próximo a popa.
— Não seja tola menina. Temos...
Lisandra interrompeu-a e encaminhou-se para as cordas que prendiam o bote. Começou a desatar os nós com dificuldade, mas não desistiu.
— Por todos os reinos do inferno pense na loucura que está fazendo! — implorou Magda segurando o braço de Lisandra.
— Não é loucura! Só vou atender a um último pedido e voltarei ao Ondinas. — disse Lisandra olhando para a mão que ainda apertava-lhe o braço. A capitã recuou.
— Se você quer assim, não a impedirei. — disse a capitã finalmente. Do outro navio ouve exclamações de recusa, mas quando o capitão Bodardo tentou se intrometer a capitã do Ondinas pediu silêncio e continuou a falar com Lisandra ignorando seus protestos.
— Ficarei esperando durante trinta minutos, nenhum segundo a mais. Se você não tiver voltado dentro desse tempo, partiremos sozinhas. Essa é a lei e pretendo cumpri-la.
Sendo assim a capitã ajudou-a a soltar o bote e Lisandra sentou-se. A uma ordem da capitã duas piratas ajudaram a descê-lo até a água.
O capitão Bodardo estava pasmo. Lair quis segui-la, mas se conteve quando Lisandra olhou para ele balançando a cabeça em negativa.
A coragem daquela menina ou sua loucura fizeram com que muitos a admirassem ou a repudiassem como era o caso de Fobia. A sereia guardava mágoas profundas pelo fato de Lisandra haver cruzado seu caminho. Era ela quem deveria estar no bote. Era seu o direito de tomar a carga para si. Um dia ela teria seu próprio navio para comandar e faria o que bem quisesse. Quem sabe se não conseguisse convencer as outras a derrubar a capitã e tomar-lhe o Ondinas. Magda estava fraca e tomava decisões que as incomodava. Não seria a hora de formar uma rebelião no seu amado navio? — perguntava-se.
Fobia planejava seu próximo passo. Não via o momento de se tornar a nova capitã. Nesse dia atiraria aquela fedelha e a capitã aos tubarões. Será um dia glorioso! — sonhava ela já tecendo as tramas de se apossar do Ondinas.
Nem a capitã nem Lisandra podiam imaginar o mal que estava sendo cultivado às suas costas. Nesse momento apenas um pensamento guiava Lisandra e foi com forte determinação que remou de encontro ao cemitério.
Continua...
2 comentários:
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Até a próxima!
Lindo conto amiga, irei seguir também.
Tem um bom fim de semana.
Beijinhos
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