Lisandra caminhava pelas ruas de Sotavento sem destino. Já era de madrugada e as ruas começavam a se esvaziar. A lua e a parca luz que vinha das casas iluminavam os seus passos. Ainda bem que usava o conjunto de viajem, caso contrário não aguentaria o frio que teimava desmanchar sua trança e fazer riscos em sua face. Lisandra queria apenas um lugar respeitável para passar a noite, mas sua busca estava sendo em vão. Olhou para os navios ancorados no cais e um calafrio se aventurou por sua espinha quando avistou o Tritão, o navio de seus sonhos. Parecia um gigante do mar, daqueles que povoavam suas histórias de infância em volta da fogueira.
Seus pensamentos foram cortados pelo som de passos apressados atrás de si. Lisandra assustou-se e tentou correr, mas não conseguiu um lugar propício para se esconder. Olhou novamente para o Tritão e foi em direção a ele. Agora já dava para ouvir a respiração rápida e os passos cada vez mais perto. Quando tentava subir pela escada de cordas do navio, braços fortes a seguraram pela cintura e a jogaram no chão. Lisandra lutou desesperadamente com o homem que tentava arrancar-lhe o casaco. O cheiro forte de bebida estava deixando-a tonta e o brilho selvagem daqueles olhos negros a amedrontaram. Ela tentou gritar, mas uma mão sebosa tapou-lhe a boca enquanto a outra se infiltrava grotescamente em seu corpete. Um grito de triunfo saiu dos lábios de seu agressor.
- Enfim ele é meu! - gritou o homem ao segurar o punhal que Lisandra carregava junto consigo.
- Por favor largue-o! - implorou Lisandra em desespero.
- Fobia tava certa. Essa arma é uma beleza. Vou ficar com ela para mim. Só para...
Não terminou de completar a frase, pois um raio de luz ofuscante saiu do punhal e envolveu o homem. Logo após o punhal caiu no chão com um baque surdo no lugar onde antes ele o segurava. Lisandra estava sozinha novamente. Olhou para os lados e não viu testemunhas do fenômeno que acontecera a sua frente. Arastando-se no chão arenoso pegou o punhal e guardou-o em seu corpete. Não poderia contar aquilo para ninguém, mas precisava obter explicações urgentes de sua avó, a rainha fada da floresta das brumas.
Lisandra se levantou e passou as mãos nas roupas e nos cabelos limpando-os e tentando parecer o mais apresentável o possível para que ninguém desconfiasse e fizesse perguntas. Ainda olhando para os lados, suspirou e apressou o passo até alcançar o Ondinas. Por algum motivo sentia-se protegida no navio e pensando bem aquele era um bom lugar para passar a noite.
Lisandra caminhou até a proa do navio onde os raios da lua incidiam volumosos. Tirou o punhal do corpete e o elevou na direção de seus olhos, fechando-os e mentalizando a figura de sua avó.
- Mãe das florestas, rainha das fadas, vinde a mim sua neta e seguidora. Meu coração está aflito. Venha! Preciso de seu conselho. - murmurou ela enquanto o punhal brilhava em suas mãos.
- Lisandra estou aqui. O que a preocupa? - disse a rainha fada em pensamento. Sua voz demonstrava preocupação e cansaço.
- Descupe interromper seu descanso. Não queria incomodá-la.
- Não é incômodo algum. Diga-me o que houve?
- O punhal foi tocado. Tentaram tirá-lo de mim, mas depois ele brilhou fortemente e o homem desapareceu. O que fiz minha senhora? Para onde ele foi? - Lisandra ofegava enquanto falava.
- Você não fez nada de errado minha neta. Não se preocupe tanto. Como eu havia dito quando lhe dei o punhal sagrado, ninguém poderá tocá-lo a não ser você e a pessoa escolhida para empunhá-lo. Se alguém indigno o fizer uma pedra irá desaparecer do punhal e levará consigo o ser que o profanou. - respondeu sua avó. A voz doce e tranquila dela acalmou Lisandra fazendo-a relaxar a pressão que fazia com os dedos no punhal.
- Para onde a pedra o levou? Ele está morto? - esse era o maior medo de Lisandra.
- Nem morto nem vivo creio eu, apenas preso na espiral do tempo em outra dimensão até que aprenda com os erros do passado e deles se arrependa. Quando isso acontecer ele poderá viver uma vida normal. - disse a avó, sua voz cativante encheu de esperanças o coração aflito de Lisandra.
- Agradeço por ter atendido meu pedido e tentarei estar mais atenta para que isso não volte a acontecer. - disse Lisandra abrindo os olhos. - Adeus rainha das fadas. Que nossos corações estejam sempre unidos e que seus desígnios sejam firmemente honrados.
- Ouça seu coração minha neta. Ele lhe mostrará o melhor caminho a ser seguido. Você é forte e possui a coragem de seus antepassados. Sei que não vai desistir. Até breve.
O punhal voltou ao normal, apenas por um detalhe o diamante que adornava o cabo havia sumido e em seu lugar ficara um espaço vazio. Lisandra o guardou em seu corpete e desceu para o compartimento onde as "sereias" dormitavam enquanto estavam em alto mar. Não havia ninguém, mesmo assim Lisandra encolheu-se em seu catre segurando o cabo da espada. O cansaço e os acontecimentos daquele dia a fizeram dormir de imediato. Lá fora uma estrela brilhou intensamente e depois caiu na direção oeste de Sotavento. Um pedido foi feito por alguém que iria conhecê-la em breve.
Continua...

7 comentários:
Adorei o conteúdo do seu blog.
Beijos
Muito legal o blog ...
Coloquei um link em meu blog ...
http://iguanaambroziana.blogspot.com/
Lindo seu blog
Obrigado pela visita
Nossa vida só faz sentido quando melhoramos a de outra pessoa.
Bom inicio de semana
um beijo
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Bom inicio de semana
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Oi, passei pra conhecer seu blog e desejar boa semana
bjs
aguardo sua visita :)
bom dia, o texto é otimo
bjs
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