Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

A Fada e o Nobre Pirata IX: Sotavento e a Caneco de Ouro

Quando o Ondinas atracou no cais de Sotavento, Lisandra tinha um brilho nos olhos. Era aquele tipo de brilho de uma criança feliz com seus brinquedos novos ou da fascinação ao ouvir uma boa história. Navios, dezenas deles, todos piratas até onde a vista alcançava, estavam emparelhados no cais do porto. Um arrepio correu por sua espinha e seu olhar encontrou o mais belo navio que já vira na vida. Nem os navios do rei eram tão imponentes quanto aquele. Lisandra havia sonhado com ele enquanto estivera desacordada. Não sabia dizer se era negro ou apenas escuro, mas que era lustroso e emanava virilidade em todo seu casco. Piscou os olhos quando a capitã Magar passou na sua frente bufando e resmungando.
- Lindo navio não é? - perguntou Fobia tão próxima que Lisandra deu um pulo assustada. - A capitã não está muito satisfeita e o capitão daquele navio é o culpado. Não sei se você sabe, mas eles são inimigos declarados além de amantes, em segredo é claro. - disse a outra sussurrando antes de pular do navio.
Lisandra não entendia como uma pessoa podia odiar e amar ao mesmo tempo, mas não era problema dela o que havia entre sua capitã e o comandante do Tritão, o navio que tanto a fascinava. Resolveu descer pela escada de corda que saía do navio e correu para junto das demais tripulantes do Ondinas.
Um novo arrepio atingiu Lisandra. Sotavendo iria lhe proporcionar mais do que diversão. Uma salva de palmas e assovios abriram espaço para elas passarem. As outras nem ligavam para os elogios sórdidos e os olhares de cobiça dos homens a volta delas. Lisandra era a única que se importava. Não precisava ter experiência de vida para saber o que se passava por aquelas mentes de porão de navio.
Lisandra deu um grito e sacou sua espada quando um velho desdentado e barbudo deu-lhe um tapa nas nádegas. O velho caiu ao chão enquanto os outros homens gargalhavam e batiam palmas. Lisandra tratou de apertar o passo antes que se perdesse das demais. Estaria segura com elas. Ao menos enquanto estivesse ao lado de sua capitã. - pensou ela estremecendo ao sentir o olhar de Fobia em seu busto. A pirata cobiçava seu punhal e Lisandra temia o que podia acontecer caso a outra tentasse lhe tomar a arma mágica.
As ruas de Sotavento eram estreitas e mal iluminadas, tornando-se o ambiente perfeito para os piratas concretizarem suas atividades escusas. O ar ressendia a cheiro de peixe, bebida e gente. Lisandra absorvia tudo com um misto de fascínio e temor.
Uma janela abriu-se acima de sua cabeça e ela teve que se abaixar para não ser atingida pela madeira. Um caneco de barro vindo lá de dentro, partiu-se a seus pés. Contornando a taverna ela conseguiu encontrar a entrada. A frente era toda de pedra negra e madeira já gasta. Numa placa de ferro, enferrujado pela maresia, estava pintado um caneco transbordando de cerveja. Era a Caneco de Ouro. A taverna mais movimentada de Sotavento.
As portas de vai-vem rangeram quando Lisandra passou por elas. Engolindo em seco, tomou coragem e caminhou procurando pela capitã. O dono da taverna, um senhor de meia idade, com uma pança avantajada e um bigode tipo espanador correu para atendê-la. Tinha um sorriso franco e falhado na frente, voz fina, careca engordurada e olhos miúdos, mas atentos. Lisandra gostou dele só de olhar, no entanto manteve-se um pouco afastada com medo que ele a abraçasse.
- Bem vinda ao meu humilde estabelecimento. Pode me chamar de Lion. A senhorita parece-me cansada. Venha! Venha! Tenho o tônico certo para ajudá-la a repor as energias.
Lisandra não conseguiu se desvencilhar do taverneiro, pois o homem pegou seu braço e praticamente a arrastou até o balcão. Mal sentou no caixote de madeira um caneco contendo um líquido branco, fumegante, foi depositado à sua frente. Ela ficou com receio de beber o negócio, mas o taverneiro a incentivava e só sentiu-se satisfeito quando ela levou o caneco aos lábios. Não era nenhuma bebida forte e amarga, era apenas leite quente adoçado com mel e temperado com canela. O sorriso sincero dela deixou o taverneiro feliz. Para alívio de Lisandra ele foi atender os novos fregueses. Isso deu-lhe tempo para avaliar o lugar e tentar localizar sua capitã.
Como Lisandra nunca freqüentara uma taverna na vida, ainda mais pirata, sua primeira impressão foi de choque. As mesas estavam apinhadas de homens bebendo e rindo de qualquer coisa. Um palco de madeira com cortinas vermelhas abrigava os músicos enquanto cinco mulheres dançavam fazendo a alegria dos fregueses. Rapidamente ela desviou o olhar, pois as garotas usavam roupas mínimas que a deixaram com vergonha. Lamparinas à óleo animal iluminavam o ambiente que cheirava a tabaco e cerveja. Era difícil caminhar por entre as mesas e se esquivar das mãos pegajosas de seus ocupantes. Não conseguiu encontrar Magar em lugar algum, mas viu de relance algumas das outras piratas bebendo junto aos homens. Fobia estava sentada no colo de um deles rindo de alguma piada que o homem lhe contara ao ouvido. Uma escada próxima ao balcão levava ao segundo andar onde Lisandra soube serem os quartos. Talvez a capitã fora descansar da viajem ou talvez, bem isso não era da sua conta. Precisava sair daquele ambiente ou sufocaria. Não passaria a noite em uma espelunca como aquela. Haveria de encontrar um lugar mais honrado e limpo para se refazer da viajem. Enquanto caminhava para a saída da taverna não percebeu um par de olhos negros a seguindo.

Continua...

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

A Fada e o Nobre Pirata VIII: Dríades


Sons de lâmina contra lâmina ecoaram para dentro da floresta. Lair estava exausto e ferido pelas adagas de seu inimigo. Os outros aguardavam sua vez de se divertir com sua presa. Tratavam Lair como um brinquedo, jogando-o de um lado para outro e de vez em quando davam-lhes chutes e socos por pura diversão. Lair estava com o rosto inchado e roxo. Seus lábios estavam partidos e faltavam algumas mechas de cabelo em sua cabeça. Quando pensou que não fosse mais resistir ele caiu de joelhos. A orda de assassinos fechou-se em círculo a sua volta. Em cada olhar o ódio se alimentava a ponto de ficar forte o suficiente para tirar-lhe a vida. Foi seu ato de desespero em fincar sua espada nos pés de um dos grandões que fez com que a floresta sibilasse agudamente em aprovação. Os espíritos da floresta não gostavam de serem perturbados, mas também não gostavam de covardia. Estavam esperando o momento oportuno para se apresentarem. Não da forma cordial dos cavaleiros, mas de forma a amedontrar quem os importunava. Lair ouviu o vento mudar de direção e o som agudo feriu seus ouvidos. O mesmo acontecia aos outros, mas nem assim eles desistiram de realizar o serviço. Um machado foi erguido e teria decepado a cabeça de Lair se ele não tivesse sido içado para os galhos altos das árvores por uma corda de hera. O machado fez um corte fundo na terra enquanto cinco pares de olhos amedontrados olhavam para cima. Dez cordas de hera foram descendo rapidamente e firmemente iam se agarrando aos pés de cada membro do grupo. Um a um eles foram içados de cabeça para baixo, perdendo suas armas e jogados de um tronco a outro de cada árvore existente na floresta até que sumiram de vista. Apenas o eco de seus gritos ainda denunciava que estavam tendo o castigo que mereciam. Lair sentia-se zonzo. Quem seriam aquelas criaturas metade humanos metade árvore? E o que fariam com ele? Ainda de cabeça para baixo Lair foi levado para um imenso galho da largura de uma estrada e deitado em folhas macias e cheirosas. Ele ainda tentou se manter acordado, mas o aroma herbal deixou-o sonolento e ele então adormeceu. Lair teve um sonho estranho. Estava em alto mar num navio bem equipado e ouvia o canto doce das sereias que desejavam levá-lo para o fundo do mar. Quando ele ia cair na água seu olhar vislumbrou o que pareceu ser uma bola com dois ossos. A última coisa que veio a sua mente antes que fosse ao encontro da morte foi a palavra Piratas. Lair acordou assustado e aliviado por não ter morrido afinal. Continuava deitado sobre o monte de folhas, mas estranhamente não sentia mais dor alguma. Reparou que havia compressas e uguentos de folhas cobrindo suas feridas. O que parecia ser uma moça estava espalhando um óleo refrescante em seus pés. Parecia que tinha voltado ao castelo e estava sendo tratado como o príncipe que era. - Oi. Voice istai bein? - perguntou a moça parando de massagear seus pés quando percebeu que ele estava acordado. - Ah. É. O-oi. Estou sim obrigado. - quase não podia acreditar na cicatrização de seu lábio inferior. - Muito obrigado por salvar minha vida e cuidar de mim. - disse Lair sinceramente fazendo abrir um leve sorriso no rosto esverdeado da moça. Só agora ele percebia o quanto era bonita apesar de ser estranha. Tinha o cabelo desgrenhado de um verde vivo, olhos da cor do cabelo e pele cor de carvalho. Não usava roupas. Apenas folhas cobriam seu corpo. Ao olhar por sobre o ombro da moça Lair sentiu-se estremecer ao ver mais quatro moças iguais a que estava a sua frente se aproximarem. - Verdha vai buiscá um poico de ága do riu po rapais bebe. Devie ista con muinta sede naon é? Lair fez que sim com a cabeça e realmente sentiu muita sede. Sua boca parecia ser feita de ar seco. As moças sentaram em torno dele e olhava-no com atenção. Parecia ser a primeira vez que falavam com um homem lá de baixo. Lair deixou seu medo de lado e as cumprimentou cordialmente. - Muito prazer em conhecê-las. Quero agradecer por haverem salvo minha vida. Se não fosse por vocês a essa hora minha cabeça estaria numa bandeja de prata sendo levada sei lá pra onde. - só esse pensamento fez Lair estremecer dos pés a cabeça. Engoliu em seco e esperou que elas dissessem algo. - Nois somu as driadis e nan goistamo de sermus pertubadas, mais naon aceitamos covardia. Voice pariece se um home de coracion bon e porisso nois o ajudou. Despois qi nosa irman voita con a aga voice devie parti. - disseram as quatro irmãs juntas como um cântigo entoado várias vezes até que após ser decorado agora encontrava seu destino. Verdha voltou com uma cuia feita de coco verde cheia de água. Lair bebeu todo o conteúdo e agradeceu mais uma vez as cinco irmãs. Novamente foi levado pela corda de hera, só que agora ficara de cabeça para cima. Quando suas botas tocaram o solo ele olhou mais uma última vez para os altos galhos e deu adeus as cinco dríades. Pegou sua espada que estava jogada no chão e partiu em direção ao rio. Seu corpo estava curado, mas seu espírito ainda agonizava da batalha sofrida e da crueldade com que seu povo fora tratado. Uma imagem veio-lhe a mente de repente: uma bola com dois ossos. Agora sabia que caminho tomar. Seu destino ele mesmo o faria se pudesse, mas não recusaria ajuda se assim precisasse. Mesmo sem cavalo, Lair seguiu a pé para o caminho que dava para o rio. Em seu coração ainda batia uma leve esperança e em seus ouvidos uma linda canção tentava levá-lo ao encontro do mar. Continua...

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

A Fada e o Nobre Pirata VII: Cobiça


As tripulantes do Ondinas voltaram a atenção as suas tarefas costumeiras, no entanto vez por outra olhavam para onde Lisandra se encontrava completamente adormecida. Especulações rolavam soltas entre as tripulantes e uma cobiça começou a se formar na mente de uma delas.
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Lisandra acordou com a sensação de que não estava em sua cama macia e aos poucos recordou-se onde estava e o que havia acontecido. Um forte cheiro de mar misturado com suor invadiu suas narinas. Ainda se sentia fraca, devido ao esforço por qual passara. Se algo desse errado ela não se perdoaria. Olhou para suas novas "amigas" e um sorriso frouxo caiu-lhe nos lábios rosados. Elas estavam bem. A capitã manejava o navio com primazia. Tudo voltara ao normal. Ao longe uma camada escura salientava que estavam próximas de terra firme. Lisandra voltou a sentar-se e guardou o punhal no compartimento secreto em seu espartilho. Seu gesto foi apreciado por olhos perspicazes. Sua voz delicada espalhou-se pelo Ondinas como uma brisa suave após uma turbulenta tempestade.
A capitã Magar assustou-se com a mudança e olhou para a popa e um suspiro de alívio escapou.
- Beca assuma o comando um instante. - ordenou a capitã. Os olhos azul-marinho de Rebeca fustigaram Magar por um instante, mas logo ela foi para seu posto temporário, os cabelos parecendo cordas em chamas toldando a imagem de seu belo rosto.
Magar aproximou-se de Lisandra com cautela. Precisava conversar com a pequena. Não acreditava em bruxas, mas sabia que havia algo de especial em sua nova tripulante.
- Você está bem?
- Sim Capitã. Só um pouco fraca. Há muitas horas que não me alimento e o esforço de ontem tirou todas as minhas energias. - desculpou-se Lisandra como se fosse sua culpa o rodamoinho ter aparecido do nada.
- Sotavento está próxima. Lá terá tudo o que precisa para se restabelecer.
- Obrigada. - disse Lisandra olhando timidamente para Magar. Alguma coisa na postura da capitã fazia com que ela se parecesse com uma deusa dos mares. Uma mulher firme e resoluta, dotada de uma beleza superior a todas as outras mulheres. Algo que Lisandra um dia desejava ser.
- Sou eu quem deve agradecer. Se não fosse por você nem sei o que poderia acontecer.
Magar reclinou-se de modo a ficar cara a cara com Lisandra. Sua voz saiu baixa o suficiente para que Lisandra a ouvisse e as outras só especulassem.
- Quem é você? Não acredito que seja uma bruxa como Fobia crê, mas há alguma coisa em você e no que fez com aquele punhal que suponho ser algo parecido.
Lisandra olhou de esguelha para onde Fobia estava dando nós numa corda. Ela quase gemeu ao perceber os olhos flamejantes encarando-a. Virando-se para a capitã tentou dizer algo que não a entregasse de todo.
- Não sou bruxa, nem feiticeira. Apenas herdei alguns dons especiais de minha família. Pode deixar que não pretendo assustá-las novamente e se possível, gostaria que não contassem a mais ninguém o que houve ontem. - pediu Lisandra sua voz saindo um pouco mais alto para que as outras, principalmente Fobia, a ouvisse.
- Há um código firmado em meu navio. Se alguém pede segredo sobre algo dentro do Ondinas ele permanecerá dentro de meu navio. Fique tranquila que ninguém vai abrir o bico. - gritou Magar para as demais tripulantes. Fobia torceu a boca num esgar de desdém. - Continue sua canção vamos chegar em instantes. Vamos suas molengas! Coloquem mais força nesses remos. Parecem mais um bando de maricas do que as piratas do Ondinas. Olha que posso trocá-las por material mais adequado em Sotavento. Beca volte a seu posto eu assumo daqui.
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O Ondinas seguia em velocidade constante deslizando pelo mar como uma sereia presunçosa com sua beleza estonteante. Lisandra sentiu-se renovada. Seu canto chamou a atenção das gaivotas que vigiavam o mar a procura de peixes apetitosos. Uma delas pousou na popa do navio ao seu lado e lá ficou até que chegaram ao porto de Sotavento, a ilha mais apreciada pelos piratas. A diversão estava só por começar.
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Continua...


Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

A Fada e o Nobre Pirata VI - A Emboscada

Imagem do google (caso conheça autoria informe)

Lair secou as lágrimas na manga de sua farda. Não usava armadura, apenas uma cota de aço por debaixo da blusa de linho cinza escuro. Uma mera proteção, muito eficaz em combates corpo a corpo. Só não protegia contra ataques de lança e flechas, duas armas de arremesso que causavam grande impacto devido a velocidade e a força infringida a elas. 
Estava sozinho em sua busca aos assassinos de seu povo. Achava um absurdo um ataque dessa magnitude debaixo do nariz real e o chefe da guarda, seu tio, não dera ordens aos seus homens para partir ao encalço dos assassinos. Olhou a sua volta e seu coração fechou-se para tanta brutalidade. Tantas vidas ceifadas e para que? Quem e o que se ganharia com tal violência? Tantas perguntas. Seu desejo era decaptar todos os envolvidos e foi por esse motivo que criou coragem para levantar e seguir em frente. Difícil seria encontrar pistas do caminho feito pelos bárbaros, já que havia muito mato queimado e madeira destruída. Lair ficou mais de meia hora analisando a terra a seus pés e por pouco não deixou passar uma pegada humana. Tirou a luva e tocou-a com a mão direita. Tinha uns dois palmos de comprimento e não afundara demais no solo.
- Estranho. Tenho a sensação de que não estão muito longe. - disse Lair para si. - Melhor assim. Será mais rápido concretizar minha vingança. 
Não havia estrada, nem trilhas na floresta densa à sua frente. Lair deixou o cavalo amarrado no tronco de uma castanheira e seguiu a pé. O sol já dava seus últimos sinais de vida e Lair ainda não havia encontrado o menor sinal de seus inimigos. Uma coruja piou em algum galho próximo e levantou vôo como se algo a tivesse assustado. Lair retesou o corpo e aguardou. Sentia que não estava mais sozinho. Havia algo ou alguém o espreitando. Podia quase sentir o cheiro de sua respiração abafada. Sacou a espada da cintura e a segurou firme com as duas mãos. Não precisou esperar muito para conhecer seu oponente, ou melhor seus oponentes. Cinco homens bem armados fizeram um círculo a sua volta. Trajavam pele de urso e usavam uma tira de couro na cabeça. Nos pés as sandálias de couro de lobo dançavam em posição de ataque. Eram eles, Lair não tinha dúvida, quem atacaram o vilarejo. 
- Assassinos! Vossa crueldade não ficará impune. Covardes! - gritou Lair virando-se para a esquerda e para a direita como a vigiar seus inimigos. 
- O principesinho ficou bravo. - debochou um dos atacantes segurando uma maça de bronze com as duas mãos. 
- O idiota veio sozinho. - gargalhou outro atrás de Lair portando um machado de cortar lenha. - Assim será mais fácil despachá-lo para o outro mundo. 
- Temos que arrancar a cabeça. O trato foi esse. - lembrou um outro que estava na lateral esquerda de Lair e segurava três facas em cada mão. Os dois restantes anuíram em confirmação. 
- Bem se querem a minha cabeça então vão ter que fazer mais do que falar. - Lair girou a espada e atacou o guerreiro com as facas. 
Sua escolha foi a mais sensata, pois aquele era um oponente perigoso. A qualquer momento poderia atacá-lo com as facas e Lair não poderia se defender de todas. Era uma luta desleal. A intenção era acabar com a vida de Lair e levar a prova do crime ao chefe dos assassinos. Lair fora bem treinado, mas sabia que corria o risco de perder a vida. Fugir de nada adiantaria e Lair não era covarde. Lutaria até o fim de suas forças e protegeria sua cabeça a qualquer custo. Rezava aos deuses que o protegessem e guiassem seu corpo e mente na luta mais importante de sua vida até então.
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Continua...

Sábado, 9 de Maio de 2009

A Fada e o Nobre Pirata: V - A Marcha dos Guardiões: 2ª Parte


Um cheiro acre de fumaça e carne queimada atingiu em cheio as narinas de Lair deixando-o enjoado. O céu estava enegrecido tal era o volume de fumaça espalhado. O mato estava com uma tonalidade amarelada e em alguns pontos ainda havia resquícios de fogo. Das casas de madeira e telhado de palha só restaram escombros.

Os guardiões apearam e começaram a vistoriar o vilarejo. Lombada parecia um campo de guerra abandonado. Lair viu peças de barro quebradas, enxadas destruídas, roupas queimadas e brinquedos de madeira amontoados numa fogueira ainda crepitante, mas o que mais o chocou foram os corpos.

Lair não aguentou e segurou-se em um galho de árvore e vomitou. O gosto amargo em sua boca não era nada se comparado ao ódio que nasceu em seu íntimo. Não queria olhar para os corpos esquartejados de seu povo e o que mais o revoltava era como os bárbaros os expunha. Tinha corpos dentro do poço amontoados uns sob os outros, alguns serviam de espantalho nas margens das plantações devastadas, ainda havia os que foram fincados ao chão por estacas de madeira. Nem as crianças foram poupadas. Lair tentava caminhar e a cada vez que via uma cabeça de criança, uma nova ânsia de vômito subia-lhe pela garganta. Reviraram todo o vilarejo e nenhum sinal de vida fora encontrado.

- Não há ninguém aqui. Vamos voltar e comunicar a notícia ao nosso capitão. - comentou Deutério, subchefe da Guarda Real aos outros cavaleiros. Antes que os cavaleiros acatassem a ordem dele, Lair o interrompeu.
- Não. Vamos ficar e enterrá-los. Eles lutaram sozinhos contra uma legião de assassinos e merecem serem enterrados com toda honra e dignidade com que serviram seu Rei. - disse Lair erguendo as mangas da camisa de linho nobre e caminhando em direção ao poço.

Não houve protestos. Eles eram os guardiões da coroa e como tais tinham o dever de zelar pelo bem do reino. Foi um trabalho desgastante tanto físico quanto mental. Os corpos foram enterrados em silêncio. Apenas o vento gania nos ouvidos dos guardiões como um lamento tenebroso.

- Senhor, podemos ir? - perguntou Deutério a Lair.
- Vão vocês. Eu ainda ficarei aqui. - disse Lair recolhendo os objetos pessoais das vítmas.
- Acabou senhor. Já fizemos tudo o que podíamos por eles.
- Discordo. Na verdade ainda há muito o que fazer. Primeiro tenho que encontrar os assassinos. - o comentário de Lair deixou seus companheiros sem fala. Sabiam que ele estava certo, mas queriam desesperadamente voltar para a base e rever seus familiares. Se o capitão ordenasse que fossem atrás dos bárbaros eles iriam.

Pensavam que Lair era um garoto fraco e mimado. Agora viam que estavam enganados, mas ainda assim estavam sob as ordens de seu capitão e não podiam ignorar essa condição.

- Senhor, vá com os deuses e que eles guiem seus passos e protegam-no de todo o mal. - Deutério apertou a mão de Lair e chamou os outros cavaleiros.

Por muito tempo Lair ficou a olhar seus companheiros partirem. Quando estavam longe o suficiente é que ele pode desatar o nó em sua garganta e deixar os soluços e as lágrimas limparem sua alma.

Continua...

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Um novo conto

Acessem o site abaixo e leiam meu novo conto A Deusa de Anília pulblicado no Recanto das Letras.

http://recantodasletras.uol.com.br/contosdefantasia/1318182

O conto postado aqui terá continuação em breve. Aguardem.

Beijos doces de sol e de lua.

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

IV - A Marcha dos Guardiões

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Bárbaros, sanguinários, gigantes sem coração. Liquidaremos sua corja. Nós que somos os guardiões da Corôa. Os guerreiros mais valorosos. Marchemos por nosso brasão.
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Avante guardiões
Lutem por seu Rei
Rujam como os trovões
Nossa espada é nossa lei
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Avante proteja os fiéis
Dilacere os ventres dos assassinos
Bárbaros, sanguinários, infames cruéis
Somos guardiões de todos os destinos
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Avante guardiões
Lutem por seu Rei
Rujam como os trovões
Nossa espada é nossa lei
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O canto de guerra era repetido por toda a tropa que seguia para Lombada, a aldeia que fora atacada por bárbaros assassinos. Lair não era mais príncipe, ao menos não entre os guerreiros de Sua Majestade. Agora ele era como eles, um guardião, destemido e valoroso. Defenderia com sua própria vida os fiéis do Reino Lamonte.
Havia três horas marchavam pela estrada que ligava o coração de Lamonte à aldeia de Lombada. Os fiéis eram servos de Sua Majestade, criavam carneiros e cultivavam milho. Recebiam um terço do que cultivavam e uma pequena parcela, ajustada em juízo, da extração da lã e do leite. Eram gente simples, sem motivações para a guerra, apenas lavradores.
Numa noite, após mais um dia de trabalho árduo, foram atacadso de surpresa por bárbaros que incendiaram suas casas, envenenaram a água, roubaram seus bens e pilharam suas mulheres. Lutaram como homens da terra, na base da enxada, paus e pedras. Foram massacrados e perderam seu bem mais precioso, a vida.
Lair e os guerreiros do Rei foram avisados do massacre em Lombada e sem demora trotaram para a aldeia. Em seus corações pulsava o ódio contra tamanha crueldade, mas também havia uma tênue esperança de encontrar algum sobrevivente.
Continua...