terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Fada e Nobre Pirata XVIII - Seguindo as regras



  A confusão foi geral. Piratas gritavam apavoradas, chamaram Lisandra de bruxa assassina, sacaram suas espadas e partiram para cima dela. Não fosse a capitã arrastá-la do convés e trancá-la em sua cabine, a situação ia ficar pior.
    A capitã Magar queria entender o que havia acontecido, mas antes tinha que acalmar as demais tripulantes do Ondinas antes que seu navio virasse um campo de guerra.
   - Será que podem ficar quietas para eu poder pensar? - gritou Magar a plenos pulmões, pois as sereias estavam inconformadas com o desaparecimento de Fobia.
   - Capitã não viu o que aquela bruxa fez? - gritou Madruga.
   - Sim eu vi.
   - Você acha certo o que aquela fedelha fez? Ela a matou. E olha que confiávamos naquela guria. Agora olha no que deu. - resmungou a pirata.
   As outras vieram dar razão a colega e importunaram a capitã até ela gritar novamente pedindo calma.
   - Preciso interrogar a garota, mas antes quero que vocês parem com essa baderna. Não precisamos de mais platéia do que já temos. - Magar se referia aos piratas do navio negro que ainda estava ancorado ao lado do Ondinas.
   - Sei não capitã, tô achando que você vai amarelar. Esqueceu de suas próprias regras? - disse Bafo da Morte, uma pirata ossuda, de nariz aquilino e que possuía um bafo fétido.
   - Não esqueci nada! Apenas quero fazer justiça do jeito certo. - disse Magar se afastando.
   - Queremos justiça! O Ondinas clama por justiça! - gritaram todas.
 
   A capitã sabia de antemão que não havia como manter Lisandra no Ondinas por mais tempo. Mesmo o Tritão, não a aceitaria. A verdade é que não haveria salvação para a garota. Magar suspirou exasperada, enquanto descia os três degraus que separavam a parte superior do navio de sua cabine.
   Os tripulantes do Tritão, o navio negro, estavam assombrados com o desaparecimento de Fobia. Nunca tinham visto nada parecido antes. O capitão Bodardo tentava manter a ordem, mas os rapazes estavam inquetos demais.
   Lair não sabia o que pensar. Ele vira a garota subir no navio, depois de sua "invasão" ao cemitério flutuante, vira seu olhar determinado e logo após a confusão com a outra pirata. Não dava para acreditar. Num momento a pirata atacava a garota e noutro desaparecia no ar sem deixar rastro.
  - Capitão Bodardo o que foi aquilo? - perguntou Lair apontando para o navio ao lado.
  - Juro que nunca vi nada parecido em toda minha vida. Já ouvi falar em magias, em bruxas, mas nunca acreditei nessas lendas. - respondeu Bodardo enquanto ajeitava as botas de couro de jacaré.
  - Não seria melhor se a gente fosse até lá e tentar acalmar aquela gente? - Lair estava impaciente e detestava não pode fazer nada.
  - Ninguém pode ir contra as regras de um navio como o Ondinas. Até mesmo esse navio tem suas regras. Eu não seria capitão por tanto tempo se não cumprisse as leis de meu próprio navio.
  - Mas capitão, não vê que elas vão acabar matando a garota? Não sou homem de ficar parado só asistindo. - Lair enrolou as mangas da camisa, virou-se e foi segurado com força pelo braço.
  - Você não tem que fazer nada, pelo menos por enquanto. Vamos ver qual vai ser a resolução da capitã e depois deixo você agir. Apenas saiba que uma vez que descer desse navio não há como voltar a não ser sozinho. - alertou o capitão soltando o braço de Lair.
   Lair respirou fundo e foi recostar-se a amurada do navio. Seu olhar estava fixo na movimentação frenética do Ondinas.
   A cabine da capitã era apenas um cômodo pequeno, com uma pequena janela próxima ao teto, paredes de madeira cheia de farpas e tendo como mobília, uma esteira, um baú com roupas espalhadas por cima e uma mesa improvisada com caixotes de legumes.
   Lisandra estava sentada na beirada do baú quando ouviu o barulho de chaves. Levantou-se num salto. Sabia que não era sua culpa. Nunca quisera que Fobia acabasse daquele jeito, mas as consequências cairíam sobre sua cabeça mesmo assim.
   Magar abriu a porta e trancou-a em seguida. Como não era de fazer rodeios, foi logo interrogar a garota.
   - Pode me dizer o que aconteceu? - perguntou olhando nos olhos de Lisandra enquanto torcia um velho chicote.
   - Eu pedi pra ela não tocar no punhal. - tentou desculpar-se mantendo a voz firme. Não havia lágrimas toldando-lhe a vista, mas seu coração estava apertado.
   - Não foi isso que perguntei! Olha, estou numa situação emergencial aqui. Gosto de você, mas não posso ser injusta com as outras. - Magar colocou a mão na parede ao lado esquerdo de Lisandra de modo a intimidá-la, mas a garota nem piscou.
   - Ela não está morta, eu acho. Apenas foi levada para outro lugar.
   - Que lugar é esse? Vamos, desembuche logo! Onde Fobia está? - gritou Magar sacudinho Lisandra pelos ombros.
   - Não sei. Juro! Me disseram que é assim que funciona. Lamento muito! - Lisandra abaixou a cabeça envergonhada por não poder fazer nada.
   A capitã soltou a garota se afastando. Andava de um lado a outro da pequena cabine tentando decidir qual decisão tomar. De repente um pensamento passou por sua mente e ela virou-se pra confrontar a garota novamente.
   - Isso já aconteceu antes não é? Responda! - Magar estalou o chicote no chão com força fazendo Lisandra pular de susto.
   - Sim. Foi na ilha de Sotavento. Enquanto eu andava pelas ruas, logo que saí da taberna, um homem me agarrou no momento em que eu parara para admirar o navio negro.
   - E o que aconteceu depois?
   - Ele sabia que eu estava com o punhal. Tentou tirá-lo de mim à força e quando o teve em suas mãos, desapareceu da minha frente. - Lisandra confessou respirando fundo.
   - Como era esse homem? Para onde ele foi?
   Lisandra contou todo o ocorrido para Magar, ocultando apenas sua comunicação mental com a avó no Ondinas. Isso ela não podia revelar.
   - Sei. Já sabia que a arma era mágica depois daquele episódio com o rodamoinho. A cobiça leva a consequências desastrosas. Também conheço o homem. Era amante de Fobia.
  - Por isso implorei para que ela me deixasse em paz, mas Fobia não quis me ouvir. - lamentou a garota.
   - Entendo que você não fez de propósito, mas as outras não farão o mesmo. Lisandra, as regras do Ondinas são muito claras. Se uma delas for infringida e nesse caso posso dizer que foi, então não posso permitir mais sua presença entre nós.
   - O que vai acontecer comigo? - perguntou Lisandra sem demonstrar medo, o que deixou a capitã mais emburrada.
   - O Ondina faz suas regras, eu as acato. Não há meio termo e não posso voltar atrás numa decisão.
   - Eu aceito. - disse Lisandra resignada. - Não se preocupe, vai dar tudo certo.
   - Não queria que terminasse assim. Gosto muito de você garota e me dói ter que tomar decisão tão drástica. Peço apenas que me perdoe. - disse a capitã dando-lhe o último abraço.
   - Também gosto de você capitã. Amo o Ondinas. Aqui aprendi muita coisa que vou levar sempre comigo. Agradeço por tudo. - disse Lisandra enquanto Magar amarrava firmemente o chicote em volta das mãos da garota e levava-a de volta ao convés.

Continua...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Borboletinha Triste (conto infantil)


A Borboletinha Triste


Numa campina de grama bem verdinha, muitas margaridas se balançavam ao sabor da brisa suave daquela manhã de primavera.
Procurando um lugar para descansar suas asinhas, a pequena borboletinha cinza pousou sobre uma margarida vermelha.
Quando estava quase dormindo ela ouviu uma risada vindo do chão.

- Ri! Ri! Ri!

Era uma cobra, que veio se rastejando até chegar perto da margarida.

- Ri! Ri! Ri! Borboleta feia igual a você eu nunca vi. - disse a cobra para a borboletinha cinza antes de seguir seu caminho rastejando pela grama.

A borboletinha ficou triste com o que a cobra disse, mas estava tão cansada de voar que resolveu esquecer o insulto.
Ela mal fechou os olhinhos e outra risada veio atrapalhar seu descanso.

- Ra! Ra! Ra!

Era um besouro que voava pela campina.

- Ra! Ra! Ra! Que borboletinha mais feia! - disse o besouro e depois saiu voando para longe.

A borboletinha estava tão triste que começou a chorar.
Muitas nuvens se juntaram no céu e solidárias com a borboletinha, também choraram gotas de chuva.
Uma abelha que procurava mel para sua colônia encontrou a borboletinha chorando.

-Por que está chorando borboletinha? - perguntou a abelha.

- Porque a cobra e o besouro disseram que sou muito feia. - soluçou a borboletinha.

A abelha não queria ver a borboletinha tão triste e então tratou de alegrá-la.

- Não precisa chorar. A cobra e o besouro não conhecem a sua verdadeira beleza. - disse a abelha.

- E qual é minha verdadeira beleza? - perguntou a borboletinha.

- É aquela que vive em seu coração, linda borboletinha. - explicou a abelha sorrindo.

A borboletinha cinza enxugou as lágrimas feliz. Agora sabia que não precisava mais chorar, pois era muito bela.
A borboletinha saiu voando pela campina batendo suas asinhas e sorrindo satisfeita.

A beleza que existe dentro de nós nem todos conseguem enxergar. Essa beleza é a mais linda que existe e a única que realmente importa.

Autoria: Cláudia Valéria Miqueloti (Chellot)