Quando o Ondinas atracou no cais de Sotavento, Lisandra tinha um brilho nos olhos. Era aquele tipo de brilho de uma criança feliz com seus brinquedos novos ou da fascinação ao ouvir uma boa história. Navios, dezenas deles, todos piratas até onde a vista alcançava, estavam emparelhados no cais do porto. Um arrepio correu por sua espinha e seu olhar encontrou o mais belo navio que já vira na vida. Nem os navios do rei eram tão imponentes quanto aquele. Lisandra havia sonhado com ele enquanto estivera desacordada. Não sabia dizer se era negro ou apenas escuro, mas que era lustroso e emanava virilidade em todo seu casco. Piscou os olhos quando a capitã Magar passou na sua frente bufando e resmungando.- Lindo navio não é? - perguntou Fobia tão próxima que Lisandra deu um pulo assustada. - A capitã não está muito satisfeita e o capitão daquele navio é o culpado. Não sei se você sabe, mas eles são inimigos declarados além de amantes, em segredo é claro. - disse a outra sussurrando antes de pular do navio.
Lisandra não entendia como uma pessoa podia odiar e amar ao mesmo tempo, mas não era problema dela o que havia entre sua capitã e o comandante do Tritão, o navio que tanto a fascinava. Resolveu descer pela escada de corda que saía do navio e correu para junto das demais tripulantes do Ondinas.
Um novo arrepio atingiu Lisandra. Sotavendo iria lhe proporcionar mais do que diversão. Uma salva de palmas e assovios abriram espaço para elas passarem. As outras nem ligavam para os elogios sórdidos e os olhares de cobiça dos homens a volta delas. Lisandra era a única que se importava. Não precisava ter experiência de vida para saber o que se passava por aquelas mentes de porão de navio.
Lisandra deu um grito e sacou sua espada quando um velho desdentado e barbudo deu-lhe um tapa nas nádegas. O velho caiu ao chão enquanto os outros homens gargalhavam e batiam palmas. Lisandra tratou de apertar o passo antes que se perdesse das demais. Estaria segura com elas. Ao menos enquanto estivesse ao lado de sua capitã. - pensou ela estremecendo ao sentir o olhar de Fobia em seu busto. A pirata cobiçava seu punhal e Lisandra temia o que podia acontecer caso a outra tentasse lhe tomar a arma mágica.
As ruas de Sotavento eram estreitas e mal iluminadas, tornando-se o ambiente perfeito para os piratas concretizarem suas atividades escusas. O ar ressendia a cheiro de peixe, bebida e gente. Lisandra absorvia tudo com um misto de fascínio e temor.
Uma janela abriu-se acima de sua cabeça e ela teve que se abaixar para não ser atingida pela madeira. Um caneco de barro vindo lá de dentro, partiu-se a seus pés. Contornando a taverna ela conseguiu encontrar a entrada. A frente era toda de pedra negra e madeira já gasta. Numa placa de ferro, enferrujado pela maresia, estava pintado um caneco transbordando de cerveja. Era a Caneco de Ouro. A taverna mais movimentada de Sotavento.
As portas de vai-vem rangeram quando Lisandra passou por elas. Engolindo em seco, tomou coragem e caminhou procurando pela capitã. O dono da taverna, um senhor de meia idade, com uma pança avantajada e um bigode tipo espanador correu para atendê-la. Tinha um sorriso franco e falhado na frente, voz fina, careca engordurada e olhos miúdos, mas atentos. Lisandra gostou dele só de olhar, no entanto manteve-se um pouco afastada com medo que ele a abraçasse.
- Bem vinda ao meu humilde estabelecimento. Pode me chamar de Lion. A senhorita parece-me cansada. Venha! Venha! Tenho o tônico certo para ajudá-la a repor as energias.
Lisandra não conseguiu se desvencilhar do taverneiro, pois o homem pegou seu braço e praticamente a arrastou até o balcão. Mal sentou no caixote de madeira um caneco contendo um líquido branco, fumegante, foi depositado à sua frente. Ela ficou com receio de beber o negócio, mas o taverneiro a incentivava e só sentiu-se satisfeito quando ela levou o caneco aos lábios. Não era nenhuma bebida forte e amarga, era apenas leite quente adoçado com mel e temperado com canela. O sorriso sincero dela deixou o taverneiro feliz. Para alívio de Lisandra ele foi atender os novos fregueses. Isso deu-lhe tempo para avaliar o lugar e tentar localizar sua capitã.
Como Lisandra nunca freqüentara uma taverna na vida, ainda mais pirata, sua primeira impressão foi de choque. As mesas estavam apinhadas de homens bebendo e rindo de qualquer coisa. Um palco de madeira com cortinas vermelhas abrigava os músicos enquanto cinco mulheres dançavam fazendo a alegria dos fregueses. Rapidamente ela desviou o olhar, pois as garotas usavam roupas mínimas que a deixaram com vergonha. Lamparinas à óleo animal iluminavam o ambiente que cheirava a tabaco e cerveja. Era difícil caminhar por entre as mesas e se esquivar das mãos pegajosas de seus ocupantes. Não conseguiu encontrar Magar em lugar algum, mas viu de relance algumas das outras piratas bebendo junto aos homens. Fobia estava sentada no colo de um deles rindo de alguma piada que o homem lhe contara ao ouvido. Uma escada próxima ao balcão levava ao segundo andar onde Lisandra soube serem os quartos. Talvez a capitã fora descansar da viajem ou talvez, bem isso não era da sua conta. Precisava sair daquele ambiente ou sufocaria. Não passaria a noite em uma espelunca como aquela. Haveria de encontrar um lugar mais honrado e limpo para se refazer da viajem. Enquanto caminhava para a saída da taverna não percebeu um par de olhos negros a seguindo.
Continua...







